“A Verdade por Trás da ‘Missa de Sempre’: Tradição ou Ideologia?”
Antes de qualquer rótulo ou classificação, declaro: não sou modernista, nem tradicionalista, tampouco liberal, conservador, de esquerda ou de direita. Sou simplesmente um sacerdote católico, inserido no seio da Igreja, fiel ao seu magistério, à sua Tradição viva e à Sagrada Escritura (cf. Dei Verbum, 10).
No vídeo recentemente publicado por Álvaro, presidente do Centro Dom Bosco, afirma-se categoricamente que o “arcebispo persegue a missa de sempre e escandaliza os fiéis”. Tal afirmação encerra uma pretensão de exclusividade da verdade e manifesta uma atitude que compromete o verdadeiro diálogo eclesial. Infelizmente, incorre-se aqui numa forma sutil, mas grave, do pecado de orgulho espiritual, onde se acredita ser o único guardião da verdadeira fé.
O Magistério como Intérprete da Fé
A Tradição não é uma realidade estática, fossilizada em um passado idealizado, mas é viva, em comunhão com o magistério e sob a ação do Espírito Santo. O Concílio Vaticano II é claro ao afirmar:
“O ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus, escrita ou transmitida, foi confiado unicamente ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo” (Dei Verbum, 10).
Reduzir a fé católica unicamente ao que foi formulado antes do Concílio Vaticano II é uma traição à própria Tradição, que, como ensina São Vicente de Lérins, deve crescer com os séculos “consolidando-se com os anos, desenvolvendo-se com o tempo” (Commonitorium, cap. 23).
O professor Álvaro recorre constantemente ao Catecismo de São Pio X e rejeita o Catecismo promulgado por São João Paulo II. Ora, ambos são documentos legítimos do magistério em tempos distintos. Como afirmou Bento XVI:
“O Concílio Vaticano II não foi uma ruptura, mas parte da única Tradição da Igreja, que cresce com o tempo sob a assistência do Espírito” (Discurso à Cúria Romana, 22 dez. 2005).
Cisma e a Comunhão Eclesial
O Código de Direito Canônico, no Cânon 751, define com clareza:
“Chama-se cisma a recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou de comunhão com os membros da Igreja a ele submetidos.”
Assim, o cisma não se resume a uma negação doutrinal explícita, mas abrange toda quebra de comunhão com o Papa e os bispos em comunhão com ele, ou seja, a ferida à unidade visível da Igreja (Lumen Gentium, 14).
Em nome da “missa de sempre”, há grupos que, sob aparência de fidelidade, acabam rompendo com a comunhão eclesial ao recusarem o legítimo exercício do magistério. A fé católica não se apoia apenas na Sagrada Escritura e na Tradição, mas também no magistério vivo da Igreja, conforme ensina o tríplice fundamento da Revelação (cf. Dei Verbum, 10).
Da Supremacia da Tradição à Idolatria do Passado
Afirmar que apenas nas “paróquias tradicionais” se formam santos, sacerdotes e famílias verdadeiramente católicas é esquecer que a santidade brota onde há fidelidade a Cristo e amor à Igreja. Os frutos da Igreja pós-conciliar são inúmeros: pensemos em São Óscar Romero, Santa Dulce dos Pobres, Beato Carlo Acutis, Beata Menina Benigna, Pe. Rutilio Grande, São João Paulo II, São Padre Pio e São José Maria Escrivá. Todos formados e florescidos na Igreja pós-Vaticano II, em comunhão com seus pastores.
O Concílio de Trento, que tanto prezamos, afirma a necessidade de reforma contínua do clero e da vida pastoral (cf. Sessão XXIII, cap. 18), o que se harmoniza com a dinâmica renovadora suscitada no Vaticano II.
A Autoridade do Bispo Diocesano
Conforme o Cânon 375 §1 e o Cânon 381 §1 do Código de Direito Canônico, o bispo diocesano é moderador da vida litúrgica e pastoral em sua diocese, com autoridade própria, ordinária e imediata. Cabe a ele zelar pela unidade e comunhão da Igreja particular com a Igreja universal.
“O bispo diocesano governa a Igreja particular que lhe foi confiada como vigário de Cristo, com poder legislativo, executivo e judiciário” (CIC, cân. 391 §1).
Não cabe a grupos externos ou autodenominados guardiões da ortodoxia julgar, condenar ou deslegitimar essa autoridade, ainda que possam, com espírito filial, oferecer observações respeitosas.
Renovar para Evangelizar
Com humildade pastoral, reconheço: após oito anos à frente de minha paróquia, sinto a necessidade de renovar métodos, práticas administrativas e pastorais, para que o Evangelho continue a tocar os corações e transformar vidas. Esta renovação não é rendição ao “espírito do mundo”, mas docilidade ao Espírito Santo, que guia a Igreja “em toda a verdade” (Jo 16,13).
A rigidez ideológica, à direita ou à esquerda, mata a alma do Evangelho, como alertou o Papa Francisco:
“Atrás de toda rigidez há sempre algo escondido, muitas vezes uma vida dupla” (Homilia na Casa Santa Marta, 24 out. 2016).
Conclusão
Por trás de certos discursos sobre a “missa de sempre”, há, por vezes, um projeto eclesiológico paralelo, que pretende construir uma Igreja à parte, com critérios próprios de “fidelidade”, muitas vezes desobedientes e julgadores. A verdadeira tradição é viva, obediente e está em comunhão com Pedro e seus sucessores.
Recordemos as palavras de Santo Inácio de Antioquia:
“Onde está o bispo, ali está a Igreja” (Carta aos Esmirnenses, 8,2).
E, com Santo Agostinho, reafirmamos: “Roma locuta, causa finita” – Roma falou, a causa está encerrada.
Recordemos, irmãos:
não somos do Centro Dom Bosco, de Dom Beto, Dom Rifan ou Padre Paulo Ricardo — somos de Cristo!
A própria Sagrada Escritura nos admoesta com clareza:
“Com efeito, enquanto houver entre vós ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um modo totalmente humano?
Quando, entre vós, um diz: ‘Eu sou de Paulo’, e outro: ‘Eu sou de Apolo’, não estais agindo como meros homens?”
(1Cor 3,3-4).
E continua São Paulo:
“Pois quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos, por meio dos quais abraçastes a fé, e isso conforme a medida que o Senhor concedeu a cada um.”
(1Cor 3,5)
Por isso, ele conclui:
“Ninguém, pois, ponha sua glória nos homens. Tudo é vosso: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente e o futuro. Tudo é vosso!
Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.”
(1Cor 3,21-23)

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