O ESCÂNDALO DA VIDA- PE. PETRÚCIO DARIO
“O Peso suave das Histórias”
Nestes dias participo do retiro anual do clero, a terceira turma. Aqui estão os padres e diáconos idosos, e também aqueles que, como eu, não puderam participar das primeiras datas. E, generosamente, Jesus concedeu-me uma graça inesperada: cuidar de um dos padres mais idosos do nosso presbitério, Monsenhor Delfino Barbosa.
Entre repousos, pequenas necessidades e longos silêncios partilhados, aprendi que a velhice tem um ritmo próprio — mais lento, mais frágil, mas cheio de uma sabedoria que somente o tempo concede.
Uma velhice à qual é concedida esta lucidez é um dom precioso para a geração que há de vir. A escuta pessoal e direta da narração da história de fé vivida, com todos os seus altos e baixos, é insubstituível. Lê-la nos livros, vê-la nos filmes, consultá-la na internet, por muito útil que seja, nunca será a mesma coisa. (FRANCISCO, 2022)
E é exatamente assim que tenho experimentado estes dias: caminhando entre memórias vivas, histórias que não cabem em livros, mas que preenchem de sentido aqueles que delas se aproximam com respeito e escuta. São fatos e acontecimentos pessoais que iluminam nossa própria trajetória.
A velhice é uma fase na qual os mais jovens deveriam aprender a perceber a riqueza de quem viveu intensamente, enfrentou lutas e se tornou testemunha viva de uma fé construída na experiência. Cada narrativa compartilhada por nossos idosos é um legado — um ensinamento que não se aprende em filmes, livros ou na internet, mas somente no encontro verdadeiro com quem trilhou o caminho antes de nós.Foi assim também com o padre Petrúcio Dário. Não tínhamos muita proximidade, mas bastaram alguns minutos para que a arte da escuta se transformasse em encontro. “Nada há na vida que seja mais respeitável que a velhice honrada.” (CÍCERO, De Senectute, II, 6).
Ele começou a falar devagar, como quem abre uma caixa antiga: as lutas, os tropeços, as vitórias, os medos, o peso dos anos sobre os ombros. Em certo momento, sorriu de lado e disse: “São muitas histórias… dava para fazer um best-seller.”
E era verdade. Aquelas poucas palavras já carregavam um afeto que transbordava. Escutá-lo fez-me pensar na minha própria história. Sou um padre jovem, é verdade, mas também carrego minhas batalhas — algumas vencidas, outras em curso. E, ao ouvi-lo, nasceu em mim o desejo sincero de lutar mais, de permanecer fiel, de aprender com quem já percorreu a longa, áspera e ao mesmo tempo luminosa estrada do ministério.
Suas histórias guardam riqueza de uma vida, entre erros e acertos, mas uma joia preciosa. “Os velhos são os guardiões da memória, sem a qual nenhuma sociedade permanece.” (CÍCERO, De Senectute, XV, 53).
O Papa Francisco certa vez afirmou: “Os sacerdotes idosos são como as raízes da árvore: mesmo escondidos, sustentam tudo” (Missa do Crisma, 2 abr. 2015). E olhando para o padre Petrúcio, entendi perfeitamente essa imagem. Ali estava uma raiz antiga, marcada pelo tempo, mas firme, sustentando ainda hoje — pelo amor — um ministério que já não depende da força, mas da entrega.
Vossa vida, caríssimo irmão, é um escândalo de amor, de serviço e dedicação ao reino. Espero chegar aos 82 anos com essa lucidez, capacidade de se emocionar e coragem para continuar lutando e ofertando a vida por causa de Jesus.
Ele continuou falando, e seus olhos, às vezes úmidos, marejavam, mostravam o quanto é difícil chegar ao crepúsculo da vida e rever tudo o que foi vivido. Mas também revelavam algo bonito: a certeza de que nenhuma luta foi vã.
Hoje ele vive uma velhice tranquila. Não corre mais, não se apressa. Mas exerce o ministério por amor — talvez, agora, com uma pureza ainda maior.
E eu, que cheguei ao retiro para “cumprir” mais uma etapa, percebi que Deus queria mesmo era me ensinar a escutar. Porque somente se compreende verdadeiramente o outro quando se acolhe sua história, seus processos, suas dores e suas alegrias.
E é isso que tenho visto: evangelhos vivos caminhando lentamente pelos corredores, carregando o peso suave das histórias que nos precedem e que nos sustentam.
Gratidão ao Pe. Petrúcio Dario pela honra de pode escutá-lo e com senhor também tive vontade chorar. Mas também, de agradecer a Deus a rica oportunidade de ‘afetuar-me’ com suas histórias e a própria vida. Não poderia escutar vossas histórias e ficar indiferente. Fiz aquilo de que mais gosto: deixar escrito e registrado os meus sentimentos sobre vossa vida.
REFERÊNCIAS
FRANCISCO, Papa. Audiência Geral. Sala Paulo VI, 23 mar. 2022. Disponível em:
https://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2022/documents/20220323-udienza-generale.html. Acesso em: 3 de dezembro de 2025.
FRANCISCO, Papa. Missa do Crisma. Basílica de São Pedro, 2 abr. 2015. Disponível em:
https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2015/documents/papa-francesco_20150402_omelia-crisma.html. Acesso em: 3 de dezembro de 2025.
CÍCERO, Marco Túlio. De Senectute. Trad. de acordo com edições clássicas. Livro II, §6.
CÍCERO, Marco Túlio. De Senectute. Trad. de acordo com edições clássicas. Livro XV, §53.
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