“Identidade presbiteral faliu?


 “Bispos dizem que o modelo de sacerdócio faliu; é preciso mudar já!”


Li recentemente esta matéria. Não sou padre de “rinha” ideológica. Próprio do meu temperamento, vivo discreto, introspectivo e silencioso. Não sou um padre carismático e tenho sempre vivido o ministério sacerdotal no anonimato. Deixo as observações anteriores para  que seja compreendido que o texto que seguirá não é uma defesa ideológica.

O progressismo ou modernismo ideológico no interior do corpo eclesial é sempre uma vergonha e falta amor a Igreja.  A Igreja, auxiliada pelo Espirito Santo, saberá sabiamente, de modo fiel, adaptar-se às conjunturas do tempo e da história. Não se pode esquecer que há uma sólida Tradição, valores, doutrina, dogmas e um arcabouço incomensurável de conteúdo e prática teológico-pastoral imodificável  e que pode ser desqualificado. 

O modelo de sacerdócio faliu ou nos deixamos levar pelo secularismo ou mudanismo? Será que esquecemos a nossa identidade presbiteral ou tornamos funcionários eclesiais e do altar? Precisamos seriamente nos questionar sobre a nossa propria vida, missão e identidade? 

Outrora, os sacerdotes eram homens de aldeia. Viviam integralmente para exercício do ministerio. Não era simplesmente um status social. De fato, “viviam a vocação” de modo integral. Estes dias fui questionado: O senhor vive totalmente como padre. Onde está o Jerônimo? Então, passei horas me questionando. Depois, recordei o rito da minha ordenação. Prostro-me, canta-se a prece litânica ou ladainha de todos os santos, de fato, morreu o Jerônimo,  e levantou-se o PADRE, o menino de tantos sonhos, depois de maduro, recebe o seu melhor presente. Ser padre é vocação, dom. A vida todo serei padre. Fiz uma escolha sabendo que não seria fácil. Sinto no meu corpo, coração, afetos e sentimentos, as dores de viver de modo radical a vida sacerdotal. É um “trupé”. Todos os dias preciso vencer as minhas paixões, fragilidades, vícios, orgulho, vaidade, soberba, arrogância, presunção e ira. Deus vai me quebrando por inteiro, destruindo e construindo tantas vezes no seu imenso amor.

A identidade é o conjunto de fatores, caracteres ou atributos que nos torna - ÚNICOS- INDIVIDUAIS. QUAL A IDENTIDADE DO SACERDOTE CATÓLICO?


*Primeiro atributo:  CONFIGURAÇÃO A CRISTO SACERDOTE

A ordenação presbiteral deixa uma marca indelével no SER, ou seja, no mais profundo do indivíduo. Chama-se configuração ontológica, existencialmente a personalidade e temperamento permanecem, mas esta configuração, ao longo dos anos vai nos ajudando a adaptar-nos segundo a vontade de Jesus. Se o padre é um homem de fé, nutre sua existência com a Eucaristia diária, liturgia das horas e suas devoções. Pacientemente une seu pobre e miserável coração ao sacrossanto Coração de Jesus. O coração do padre sempre será ferido, pois sempre precisará de Cristo, como o bálsamo do amor para cicatrizar as feridas do coração e da alma. O padre precisa ter essa consciência de pequenez, de ser homem ferido pelas marcas da existência e do pecado. O padre é um homem para o Outro e os outros, nunca pa si. “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.” (Gl 2,20) 

O tempo todo padre deverá entender que sua vida está nas mãos de Deus. Toda sua vida deve cada dia ser unida à vida de Jesus.


*Segundo atributo: O Sacerdote é o homem do altar, do sacrifćio e dos sacramentos.

“Em verdade, todo pontífice é escolhido entre os homens e constituído a favor dos homens como mediador nas coisas que dizem respeito a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Sabe compadecer-se dos que estão na ignorância e no erro, porque também ele está cercado de fraqueza. Por isso, ele deve oferecer sacrifícios tanto pelos próprios pecados quanto pelos pecados do povo.” (Hb 5, 1-3)

Esta afirmação contraria muitos doutores em teologia, pastoralistas e ativistas de direita e esquerda. O padre é um homem do altar. Pela mistério sagrado da ordenação, sua missão e identidade têm a essencialidade: “nas coisas que dizem respeito a Deus”. O padre não é chamado para deixar-se consumir pelo ativismo ecológico, construir, preocupar-se com as conjunturas sociais ou problemas politicos, ideológico e partidário. A vida do presbítero é centrada no mistério da Cruz de Cristo, paixão, morte e ressurreição.  Tudo que o padre faz será consequência da essência do seu ministério. O núcleo do sacerdócio católico - "oferecer sacrifícios tanto pelos próprios pecados quanto pelos pecados do povo.” O homem escolhido do meios para oferecer dons e sacrifícios. “Para que a vida toda seja sacerdotal, é fundamental que o sacerdócio tenha a sua fonte no altar, de tal modo que a liturgia seja a fonte e o ápice da própria vida e missão. Por isso, não há férias no âmbito da oração e da celebração eucarística; ao contrário, em férias, há mais tempo para dedicar-se a oração, a escuta da Palavra, a adoração e a celebração eucarística.” (Cardeal Sérgio da Rocha) Os sacramentos são instrumentos de salvação. E o padre também é um “sacramento”, sinal do amor de Deus. É interessante que o padre nutra uma intimidade e amizade com Deus, de tal forma, “O padre é sacerdote para o altar, para o sacrificio eucarístico. Engana-se quem reduz o sacrificio eucarístico ao altar.  E exatamente porque oferece com o povo e em nome do povo o sacrifício da missa que o sacerdote deve fazer da própria vida uma continuação do que celebrou no altar. A minha missa no altar deve ser missa na minha vida. Você, padre, que foi separado para o evangelho, você que foi tornado posse de Cristo sacerdote, a sua vida tem que ser como a de Cristo: uma existência para o Pai e os irmãos. Presença viva Dele, todo para Deus, todo pra os outros na obediência ao Pai, até morte e morte de Cruz. A missa do padre é a vida toda. Ela sai do altar e escorre a vida toda. Se o padre não colocar o altar no centro de sua vida, ele perde o foco. Ele priva suas diversas  atividades, os diversos aspectos de sua existência do eixo que dá sentido, eficácia, realização a sua existência como cristão e como padre ” (Dom Henrique Soares da Costa). 


*Terceiro atributo: Ser bom pastor.

A identidade presbiteral se identifica à dinâmica do BOM  PASTOR. O padre, como falava anteriormente, é um homem para os outros. “O Coração do Bom Pastor está inclinado para nós, concentrado especialmente sobre quem está mais distante; para aí apontar, obstinadamente, a agulha da sua bússola, por essa pessoa revela um fraquinho particular de amor, porque deseja alcançar a todos e não perder ninguém”. (Papa Francisco) O presbítero, a partir de ordenação, configura-se de modo tão profundo a Jesus Cristo, o Bom Pastor,  ele  (o padre) cuida, acolhe e sara a ferida de suas ovelhas, carrega-as no colo. Não é um fazedor de pastoral. Um pastoralista criativo. Mas um  mistico, pastor, homem dos sacramentos. Somente assim, a identidade do presbítero pode ser revigorada.  A imagem que nos é oferecida em Jo 10, 1-28, é exatamente a iconografia de como deve ser padre. O presbítero não deve ser um burocrata, carreirista, soberbo, vaidoso, ganancioso, arrogante ou presunçoso, mas antes, dócil, afável, acolhedor, prudente, sereno, paciente, orante e servidor. A identidade presbiteral na dinâmica do bom pastor. Configurado a Cristo, o padre é, através dos seus gestos e palavras, um continuador da obra salvífica do Senhor. Lindo e poético pensarmos nesta formatação sobre o ministério presbiteral- CONFIGURADO A CRISTO - HOMEM DO ALTAR- BOM PASTOR. 

*Quarto atributo: O celibato sacerdotal - Martírio frutuoso por amor a Cristo.

A identidade presbiteral não faliu. A falácia que querem transmitir como se fosse uma verdade é um terrível engodo. Pernicioso. Saída da boca que quem tem dever e a honestidade de promover a unidade da Igreja e anúncio da verdade. O celibato sacerdotal é sem duvida uma demonstração rica e bela do nosso amor a Jesus. “O sacerdócio de Jesus nos faz entrar em um caminho que consiste em unir-se a Ele e em renunciar a tudo que não pertence senão a nós, Tal é o fundamento para os padres da necessidade do celibato, mas também da oração litúrgica, da meditação da Palavra de de Deus e da renúncia aos bens materiais”. (Bento XVI - Do profundo coração,  p. 22) O  celibato não é simplesmente um não casar-se, mas um sim definitivo a Cristo. Unimos-nos de modo surpreendente a Jesus, reconhecendo que nossa existência está nas mãos de Deus. Não é um viver para si, mas para o Outro. Os sacerdotes, por livre decisão de sua vontade, renunciam a si mesmos. Não é ato contra natureza, mas uma opção livre e consciente. Somente dessa maneira, o presbítero pode existir de modo integral para Deus. Também é preciso entender a realidade mais profunda do sacerdócio - MINISTÉRIO E MISTÉRIO. Restringir a realidade presbiteral ao ministério dificulta a melhor compreensão da profundidade da vida do padre. É mistério incompreensível a razão humana. Esta dimensão alarga de modo estupendo a necessidade do celibato sacerdotal como uma expressão eloquente de amor a Cristo. Ele (padre) é uma hóstia de amor, ofertada diariamente no altar a Deus. O celibato é o bilhete de ouro que nos faz adentrar no ser de Cristo-Sacerdote. 

*Quinto atributo- a devoção a Santíssima Virgem.

Todos os fiéis são chamados a colocar sua vida nas mãos de Maria, especialmente os sacerdotes. A Virgem é o modelo singular de pureza e castidade. Segundo o Papa São João Paulo II, existe uma relação essencial (...) entre a Mãe de Jesus e o sacerdócio dos ministros do Filho, que é derivante daquela que existe entre a maternidade divina e o sacerdócio de Cristo (Cf. JOÃO PAULO II, Catequese da Audiência Geral de 30 de Junho de 1993). Cada presbítero é chamado a recorrer a Nossa Senhora em todos os instantes de sua vida. “Todo o presbítero sabe que Maria, porque é mãe, é também a mais eminente formadora do seu sacerdócio, uma vez que é Ela que sabe modelar o seu coração sacerdotal, protegê-lo dos perigos, dos cansaços, dos desencorajamentos e vigia, com materna solicitude, para que ele possa crescer em sabedoria, idade e graça, diante de Deus e dos homens (cf. Lc 2, 40)’ (CONGREGAÇÃO PARA O CLERO, Diretório para a vida e ministério dos presbíteros, 68). Todo presbítero é sempre motivado a compreender e cultivar a devoção à Santíssima Virgem, utilizando os meios necessários que a Igreja, na sua rica tradição, oferece. 

Por fim, não faliu a identidade presbiteral, porque o modelo unico é CRISTO.


Pe. Jerônimo Pereira Bezerra 

In Christo per Mariam 

Comentários

  1. Bom dia Deus te abençoe sempre o padre antes de padre e um ser humano como qualquer outro o que diferencia é o seu amor por Cristo por isso muitas vezes esqueci-se que um ser humano estou admirando sua volta

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  2. Deus o ilumine e lhe abençoe sempre padre.

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