O Mistério da Morte e a Esperança Cristã segundo Dom Henrique Soares da Costa
4 anos de
falecimento
“Que mistério tão grande! Procure
compreender isso: Ele não somente morreu na cruz, mas entrou na morte. Ele
experimentou o que todos nós experimentamos e experimentaremos um dia: o drama
da morte. Que mistério impressionante: a vida engolida pela morte. O Autor da
vida, o Deus potente, agora é nada. Neste segundo dia do Tríduo, Jesus foi
cadáver. E o que um cadáver pode fazer? Nada. Totalmente derrotado, totalmente
entregue à morte. Mas, aqui vocês têm que entender que não é somente uma
questão física. A morte, como a gente a experimenta, é dolorosa e amedronta
porque está ligada ao pecado. A questão é essa: na hora em que meus olhos se
fecharem para o mundo, o que me espera? O nada, o vazio ou uma vida plena? Essa
é a questão mais importante da vida. Pois bem, o nosso irmão Jesus venceu a
morte. Ele ressuscitou. E de tal modo apareceu aos doze apóstolos, e de tal
modo os doze tiveram certeza, que ficaram loucos, largaram tudo, saíram pelo
mundo pregando e todos eles deram a vida por isso. Pela certeza que tiveram,
pela experiência que viveram. E é por isso que nós somos cristãos. Somos
cristãos porque cremos que Jesus venceu a morte, e nós queremos vencer a nossa,
e somente podemos vencer com Ele (Jesus). Na hora de morrer, poder assim. É um
sonho que tenho. Não sei como vou morrer, Nosso Senhor sabe. Mas, queria muito
poder, Deus me livre morrer de repente. A Igreja nos ensina a pedir: "da
morte súbita, livrai-nos, Senhor". Deus me livre de morrer de repente. Eu
quero morrer, se Deus me der a graça, aos poucos, sabendo que vai acontecer,
para no último momento eu poder dizer: Senhor, eu te busquei a vida toda,
procurei viver na tua vontade e agora, Senhor, esta vida que tu me deste, esta
vida que é tão preciosa, eu entrego, com todo amor e toda confiança, e com toda
liberdade e com toda esperança nas tuas mãos. Porque eu sei que não é a morte
que virá a mim, mas és tu mesmo. Eu não caio nos braços da morte, eu caio nos
teus braços. Porque tu venceste a morte. (Dom Henrique Soares da Costa)
Há quatro anos, o mundo católico,
estupefato, perdia um dos bispos da nossa geração mais eloqüentes, fiel e
profeta. A morte de Dom Henrique pegou-nos de surpresa. Mas, penso a partir da
hermenêutica teológica de Dom Henrique compreender a vida e a morte, como um
sempre lançar-se nos braços de Deus. O cristão tem como objetivo a vida da
graça. O reino de Deus. Para isso, somos convidados a preparar desde cedo a
nossa morte, pois não sabemos o dia que Jesus virá nos buscar. A morte para o
cristão deve ser sempre cheia de esperança. Interessante se pensarmos bem:
vivemos para morrer e morremos para viver a vida eterna em Deus. Se cada dia
mais é aproximação da morte, deve sempre estar preparado. Como é esta
preparação diária? Confissão constante, vida eucarística, devoção à Virgem
Maria, vida piedosa, casta e sempre buscando Jesus, amor da nossa vida.
“Propõe-te melhorar de vida. Nunca mais, Senhor, me entregarei ao pecado, não,
jamais, com o auxílio de vossa graça. Oh! amei-o demais, mas agora detesto-o de
todo o meu coração. Eu vos abraço, ó Pai das misericórdias! Em vós quero viver
e morrer.” (São Francisco de Sales, 1959, p. 23)
Dom Henrique, em vida, deu profundo e
autêntico testemunho de uma vida devota. Suas palavras, gestos e esse jeitinho “nordestês” de ser espalhavam de modo contagiante a mensagem do evangelho.
Abria-nos o coração para o desejo sincero de ser santo. O “Quinho”, como a
família carinhosamente o chamava no cotidiano da vida, tornou-se monge, pois
queria uma vida austera e silenciosa. Foi ordenado padre e embrenhou-se no
estudo, escrita e vida de mestre por excelência da fé, sendo ordenado bispo,
sua voz ecoava com mais força e eficácia. Nestes dias extenuantes que estou
vivendo, tenho se lembrado de suas palavras: “Jerônimo, Deus lhe chamou, te
dará os meios necessários para retornar ao seminário, ser padre e viver
santamente sua vocação.” Naquela manhã de 14 de junho de 2006, quarta-feira,
suas palavras chegaram ao meu coração e ficaram até hoje, 18 anos depois. Citei
meu exemplo para falar o quanto é importante escutar o outro, sem julgamentos
temerários, e simplesmente ser o braço que abraça, os olhos que olham com amor
e a vida que se entrega em favor dos outros para cuidar.
"Quer dizer, o cuidado se encontra
na raiz primeira do ser humano, antes que ele faça qualquer coisa. E, se fizer,
ela sempre vem acompanhada de cuidado e imbuída de cuidado. Significa
reconhecer o cuidado como um modo-de-ser essencial, sempre presente e
irredutível a outra realidade anterior. É uma dimensão fontal, originária,
ontológica, impossível de ser totalmente desvirtuada." (Boff, 2014, p. 38)
Dom Henrique sempre se preocupou em
cuidar dos outros para seguirem com coração livre para Jesus.
Portanto, o bispo falecido de Palmares/PB, Dom Henrique
ao tratar sobre a morte faz um convite para todos os cristãos viverem uma vida na graça,
em preparação constante para o encontro com Deus. Ele nos lembra que a morte, para
o cristão, deve ser cheia de esperança, pois não é o fim, mas o começo de uma
vida eterna em Deus.
Referências
SÃO FRANCISCO DE SALES, L. Filotéia: ou
Introdução à Vida Devota. Tradução de Frei João José P. de Castro. 8. ed.
Petrópolis: Editora Vozes Limitada, 1959.
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