Alerta: A escuta pode gerar verdadeira comunhão na Igreja!

 


No ambiente eclesial e no exercício de nossa missão como pastores do povo de Deus, enfrentamos um grande desafio: a prática da escuta. Muitas vezes, somos absorvidos por nossas preocupações e responsabilidades, mergulhados em uma multiplicidade de pensamentos e tarefas que exigem atenção imediata. Nesse contexto, corremos o risco de sermos percebidos como meros “fazedores de coisas”, em vez de servos do Senhor. Contudo, o centro da vida sacerdotal e episcopal deve ser a oração, especialmente a vivência da Eucaristia.


Recentemente, um jovem chamado Eduardo me perguntou: “O senhor está aqui em Pão de Açúcar; há alguma determinação específica para celebrar a missa?” Respondi: “Não. A missa é o centro da minha vida; é nela que encontro sustento para minha espiritualidade”.


A escuta é uma dimensão essencial da comunhão eclesial. Como afirmou Bento XVI, “a caridade na verdade exige a escuta recíproca” (Caritas in Veritate, n. 54). A Igreja, enquanto comunidade de amor, deve cultivar a prática de ouvir, pois, como destacou o teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer: “Devemos escutar através do ouvido de Deus, se queremos poder falar através da sua Palavra” (Vida em Comunhão). Assim, a escuta se torna o primeiro serviço que devemos uns aos outros, uma expressão de amor que reflete o próprio Cristo, o ouvinte por excelência.


Ouvir o próximo requer, antes de tudo, a capacidade de ouvir a si mesmo: reconhecer nossas necessidades, medos, frustrações, fraquezas, alegrias e incertezas. Esse exercício de autoconhecimento é indispensável para um relacionamento mais profundo e autêntico com os outros.


A necessidade de uma escuta sincera e compassiva é urgente na Igreja. Antes de punir ou emitir decretos, é essencial silenciar, rezar e ouvir. A experiência da calúnia, por exemplo, nos ensina o valor da escuta sem julgamentos. Quando somos injustiçados, desejamos ardentemente ser ouvidos com amor e compreensão. Como afirmou o cardeal Robert Sarah: “O silêncio é o caminho para a paz interior e o amor ao próximo” (O Poder do Silêncio).


Pedir aos bispos que escutem não é apenas um apelo administrativo, mas um clamor espiritual. Quando a escuta é negligenciada, a sensação de abandono se instala, ferindo profundamente a alma humana. Sentir-se abandonado é experimentar a solidão mais dolorosa, especialmente no seio de uma comunidade que deveria refletir o amor de Cristo.


A fofoca, como alertou o Papa Francisco, é uma das maiores artimanhas do diabo para destruir a unidade da Igreja:


“As fofocas fecham o coração à comunidade, impedem a unidade da Igreja. O grande fofoqueiro é o diabo, que sempre sai dizendo coisas ruins dos outros, porque ele é o mentiroso que tenta desunir a Igreja, afastar os irmãos e não fazer comunidade. Por favor, irmãos e irmãs, façamos um esforço para não fofocar. A fofoca é uma peste pior que a Covid” (Angelus, 6 de setembro de 2020).


Por meio da fofoca, o inimigo semeia calúnias, difamações e julgamentos precipitados, promovendo divisões e afastando os irmãos. Antes de concluir algo sobre outra pessoa, é necessário buscar a verdade com humildade e amor. Rotular, ofender ou machucar contraria a essência do Evangelho.


Escutar é mais do que uma habilidade; é um gesto de amor e comunhão. A Igreja é chamada a ser um espaço de acolhimento e escuta mútua, onde o silêncio orante preceda qualquer julgamento. Assim, podemos cumprir nosso papel como discípulos de Cristo, refletindo em nossas ações o convite de Bento XVI: “Amar significa dar ao outro o que ele necessita de nós, não apenas material, mas também espiritual: tempo, atenção, escuta” (Deus Caritas Est, n. 6).


Recentemente, um jovem sacerdote, cujo nome prefiro preservar por uma questão ética e fraternal, procurou-me angustiado. Segundo ele, foram-lhe imputadas algumas calúnias. Esse jovem presbítero chorava como uma criança em busca de consolo. O que mais o afligia não eram as calúnias em si, mas o fato de não ser ouvido e ser injustamente julgado como culpado, sem a presunção da inocência e uma investigação séria sobre as acusações. O choro revelava a dor pela dureza de coração daqueles que, ao invés de amá-lo, simplesmente o abandonaram.


Outro exemplo que ilustra essa realidade é a expulsão de alguns seminaristas sem motivos razoáveis. Simplesmente porque o reitor considerou que esses seminaristas não estavam alinhados com a formação. Os jovens ficaram desolados e, até hoje, aguardam ser escutados por seus bispos. Alguns deles vivem uma tristeza preocupante e um sentimento de injustiça que perfura dolorosamente seus corações.


Que a escuta seja, portanto, um instrumento de unidade, um antídoto contra as divisões e uma ponte para o verdadeiro amor cristão.



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